
Sundays por Tales
“São Paulo pra mim é uma confusão de sentimentos — o que acho que seja algo comum a qualquer um que more aqui. A sensação que tenho sobre São Paulo é de um amor confuso. Não sinto que sou paulistano apesar de provavelmente ser igual a qualquer outro.” Tales chegou a São Paulo aos 13 anos, depois de nascer na Baixada e crescer entre diferentes referências familiares: a mãe pernambucana, o pai nascido em Marília e criado em Santos. Sempre tentou carregar essa história em sua defesa, como um paulista de família nordestina que romantiza as próprias raízes para se defender da ideia de que, no fundo, no fundo, é como qualquer outro nascido aqui, como ele próprio diz. Hoje, médico anestesista, poeta e apaixonado por escalada, Tales construiu sua São Paulo a partir dos lugares que, com o tempo, se tornaram parte da sua história. Sem se esquecer daqueles que já se foram, faz uma menção honrosa a alguns rolês do passado: Beco 203, D-Edge, festas no campus da USP, Trackers e nomes como Voodoohop, Capslock, Mamba Negra e Metanol fazem parte desse imaginário. Uma São Paulo que, para Tales, deixou saudade.

Casa de Pedra Perdizes
O primeiro lugar que eu vou recomendar é uma coisa que está bem na moda hoje em dia: a escalada. Antes era uma coisa meio de gente alternativa, agora está até em passarela de desfile. Mas eu quero falar da CP Perdizes.
A Casa de Pedra Perdizes é um dos lugares mais tradicionais, onde rolam campeonatos e estão algumas das maiores paredes de indoor para escalada guiada. É meio que um templo aqui em São Paulo do pessoal da escalada.
Sempre tive dificuldade com esportes em geral, principalmente pela monotonia. Corrida, natação, essas coisas nunca me pegaram. A escalada me encantou por essa coisa lúdica e dinâmica: cada via é de um jeito e você está o tempo inteiro pensando, criando estratégia. É um esporte bem intelectual, mas, ao mesmo tempo, você trabalha força, flexibilidade e condicionamento físico, além de lidar com medo e adrenalina.
Também acho um esporte democrático, em que você entende seu próprio corpo e cria estratégias para ele subir. Você ser mais baixo ou mais alto não impede nada. É um esporte encantador e gosto muito de ir pra CP.
Menção honrosa: David Henrique, meu professor. Recomendo muito fazer aula com ele, principalmente para quem está começando. Ele tem uma ideia de progressão e cuidado que acho muito importante para evitar lesões.

Tau Cozinha
Vou falar de dois lugares que são bem afetivos, lugares para comer que têm muito a ver com a relação que comecei a ter com o vegetarianismo por causa da Beatriz. Isso meio que transformou meu olhar não só em relação ao sabor da comida, se a comida é boa ou não, mas também ao cuidado que os restaurantes têm com a comida e com as pessoas que vão lá e são recebidas.
Acho que tem esse caráter de ter cuidado com a comida e de pensar a comida de uma maneira mais complexa do que simplesmente jogar um bife na panela ou ter um bom peixe que você compra. Tem toda uma ciência por trás dos alimentos que eu vejo nesses lugares.
O primeiro é o Tau, que eles se intitulam cozinha de vegetais, acho que para se retirar um pouco desse lugar de ser um restaurante vegetariano, ou seja, um restaurante onde não tem carne. Eles pegam os vegetais e os transformam numa leitura contemporânea e super complexa.
Eles entendem os alimentos, sabem a consequência de você usar um ou outro. E é encantadora a experiência de você estar lá. O atendimento é muito bom, as bebidas são muito boas e as comidas são assustadoramente gostosas. Fica a dica do Eryngui e do Linguini ao missô pesto.
Hirá
E aí o outro é o Hirá, que eu acho que poderia colocar num top 5 de lamen para mim, e é o lamen favorito da Beatriz. Realmente, em termos de lamen veg, é um dos poucos lugares que falam: “Eu vou fazer um lamen veg gostoso”, e não só fazer um caldo de missô e jogar qualquer coisa de legumes.
E é absurdo, tanto o lamen veg quanto os lamens que têm de opção para carnista. É um lugar que, ao mesmo tempo que é muito bom de lamen, é muito bom de cru. Eles têm uma massa que se chama Mazemen, que eu acho fantástica, que é um misturadão, e também tem o Barazushi, que entra junto no meu Top 3. Tem o shake don e outros pratos de crus, além de sashimi e combinados, que são muito, muito bons, de qualidade.
E eles têm um drink que é considerado o meu drink favorito e o da Beatriz também, que é o Nakamegu.
Então, esses dois lugares, a experiência de comer é muito diferente, assim. São lugares que eu gosto de voltar de tempos em tempos.

De lá do pão
Bom, aí tem o clássico De Lá do Pão, que fica ali perto de casa. Tem alguns grandes absurdos deles, como o pão de queijo e o cookie, que eu acho surreais. No brunch, a Beatriz gosta muito dos ovos mexidos, mas eu sou fã do omelete de cogumelos. Acho impecável, definitivamente o melhor omelete que eu já comi fora de casa.
É um lugar que cabe todo mundo, muito difícil você não conseguir ser atendido. O pessoal que trabalha lá é muito solícito e simpático, e é gostoso sentar para ler um livro ou com a turma, como a gente faz antes ou depois de escalada e de rolê.
Agora tem, vizinho, o Empório do De Lá do Pão, que serve sanduíches e salada com quiche. Tem o sanduíche de pastrami, que eu acho muito, muito bom, e uma quiche de pernil, que eu acho muito boa também.
Também tem muito afeto, lógico, porque é perto de casa. Acho que o De Lá do Pão é um lugar super família: a galera vai com cachorro, com amigos, num dia qualquer. É menos esse lugar pomposo da cafeteria e, ao mesmo tempo, não é só uma padaria artesanal. Você consegue tomar café, almoçar, tomar brunch e comer bem, não só pão, pão, pão.


Esquina Pompéia Chic
Cara, eu acho foda mencionar o Esquina Pompéia, o Sósia.
Depois da questão de fechar restaurante e bar cedo, poucos lugares permaneceram 24 horas, ou pelo menos pelo começo da madrugada. E acho que, por serem lanchonetes, alguns lugares continuaram, né? Então BH Lanches, a Bela Paulista e, entre eles, o Souza.
A gente chama Souza as duas lanchonetes que ficam uma na frente da outra ali na Pompéia: a lanchonete Souza e o Sósia, que a gente brinca que é o Sósia por causa da cópia do Souza.
A cerveja é gelada e uma coisa bem importante é que a Beatriz quase não tem lugar para comer. Raramente tem algo em uma lanchonete além de batata frita pra ela. No Sósia, às três da manhã, ela consegue pedir um PF de omelete, arroz, feijão, salada ou fritas, e o omelete é delicioso.
Então eu tenho um carinho muito grande também por esse lugar. Já fui muito em rolê saindo da Lop-Lop Livros, rolê de poesia com a molecada e também pós-show, pós-rolê. A gente sempre acaba lá.
Josefa no Paraíso
É meio engraçado falar desses lugares, porque a gente é meio suspeito para falar, já que são lugares que a gente ama.
O Josefa no Paraíso é um lugar que eu tenho muito afeto, porque sou muito amigo da Tainá. Ela ficou muito amiga também da Beatriz, então a gente tem uma relação muito próxima. O restaurante é da Tainá e da Bel e, no soft opening delas, eu lancei meu livro. Então é um lugar que ficou marcado na minha história.
E já cansei de rolezinho lá, tanto à noite como nas coisas que elas fazem. Já fui em um evento de brechó, jantar, levei meus pais, fui com amigos. É um lugar que eu tenho afeto também por ser a casa de uma amiga, de certa forma.
Mas, cara, as comidas são muito boas. Tem uma leitura meio francesa, mas é bem contemporânea e puxa também para o brasileiro. O bolovo mar e terra é genial, de um lado porco, do outro camarão. Amo também o steak tartar, e a broa de milho com patê de fígado e coração de galinha é de morrer.
Os drinks são surreais. Acho que o principal para mim é o Coentro Smash: eles fazem um Basil Smash e trocam o manjericão por coentro.
O atendimento é muito legal, porque dá uma sensação meio família, de estar numa casa mesmo e de você ser atendido por elas, que sempre estão lá, e por uma equipe muito sólida e muito junta. E a decoração é muito surreal, parece uma casinha de vó, tanto nas taças e pratos quanto nas paredes.
Tem uma personalidade, assim. Tem uma vida própria, o Josefa.


Petiskin do Bob
O Petiskin do Bob eu amo por diversos motivos também. Para mim, é meio aquele domingo, horário do almoço tardio, duas, três, quatro da tarde. Você está com fome, meio de ressaca, combina com os amigos de ir para um lugar e aí é almoçar e beber um negocinho ainda de dia, normalmente numa mesa na rua, comer e beber bem.
Frutos do mar, cerveja e, para a Beatriz, vegs gostosos. De prato principal, acho que os fortes são as moquecas e as caldeiradas, que são surreais. De entrada, tem a casquinha que é absurda. Ela é imensa e, em vez de ser só de siri, tem lula, camarão, é uma puta refeição. E tem o Caju Amigo, que eu acho fantástico. Provavelmente é o único lugar onde eu peço sempre o Caju Amigo.
E eles têm um menu só veg, com camarão vegetal e pasteizinhos. Mas o que eu acho sensacional é a isca de peixe vegetal. É de soja, mas são umas postas imitando uma isca de peixe que são muito boas. Poucas coisas de soja eu gostei tanto, e a Beatriz é viciada também.
Loplop Livros
Bom, saindo de restaurantes e lugares de comer, a Loplop é uma livraria que também é uma coisa de registro, de experiência.
É basicamente a livraria onde trabalham meus amigos poetas. O Alex é dono, o Diogo Cardoso e o Elvio estão sempre por lá, e eu, o Léo Chagas, o Ziggy e o Bernardo também estamos trabalhando, no sentido de que lá é um lugar de encontros.
Além de ser uma livraria, a Loplop agora também é uma editora. É um espaço onde acontecem as Leituras Surrealistas, outros saraus e onde se une um pouco o ambiente da poesia. É meio que o antro do surrealismo de São Paulo hoje em dia.
A quantidade de livros que tem lá, que não tem em outros lugares, é absurda. Tem um dedo muito especial do Alex e do resto da trupe nessa seleção. É uma livraria independente, diferente desse lugar em que você entra, escolhe um livro e vai embora. Lá você está conversando com um livreiro sobre poesia e, de repente, ele te indica um livro que tem tudo a ver com o que você está falando e que nem era o que você imaginava levar.
Acho que, para quem quer se aproximar de poesia, do surrealismo ou de uma literatura mais desviante, que escape do tradicional e do bem-quisto, é um bom jeito de conhecer tanto essa galera do passado quanto os poetas de hoje e a cena atual.
CineSesc
O CineSesc é essa combinação bizarra: de um lado, Sesc, esse nosso querido orgulho do paulista, e, de outro, um cinema de rua.
Apesar de ser um cinema de rua, tem uma qualidade absurda de tela, imagem e som. É um puta cinema. Meus amigos do cinema falam que é o melhor lugar para assistir filmes em São Paulo.
E aí tem aquele traço Sesc, que é encantador. Tudo funciona, você é bem atendido, a comedoria, o bar e o café funcionam, as comidas são absolutamente gostosas e você fica meio em choque do quanto pagou, inclusive no ingresso do cinema.
E tem uma coisa muito maluca para um cinema, que é o fato de ter um bar dentro. Você consegue até assistir da janelinha do bar, comendo uma pipoca, tomando um vinhozinho.
Eles também têm uma seleção de filmes bem assinatura Sesc. Participam dos festivais e fazem sessões que fogem um pouco dos filmes atuais. Às vezes você vai no Sesc meio que para ver qualquer filme. Então é muito massa e um pouco diferente da relação com outros cinemas.